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Imagem de Uma guerra em que o inimigo não tem nome
África em Destaque 1 dez, 2025, 07:22

Uma guerra em que o inimigo não tem nome

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África em Destaque 1 dez, 2025, 07:22

Uma guerra em que o inimigo não tem nome

Desde Outubro de 2017, altura em que iniciou o conflito que assolou o Norte de Cabo Delgado, constata-se a falta de uma clara estratégia governamental para lidar com o fenómeno. Nos primeiros meses, o governo foi apresentando ultimatos, dando aos indivíduos armados um curto período de tempo para entregarem as armas, ameaçando com uma resposta violenta.

À medida que a insurgência atacava as múltiplas aldeias, frequentemente com detalhes macabros, aumentavam as deslocações forçadas das populações, que se concentravam nas vilas sede distritais e em Pemba. O governo usava a estratégias de black out informativo. Jornalistas independentes do poder governamental passaram a ser considerados incómodos, e vários foram detidos durante o exercício das suas funções. Não obstante a ansiedade que a guerra e a incerteza geravam sobre a população, as rádios comunitárias locais pura e simplesmente não informavam acerca do conflito. As notícias acerca da guerra circulavam via oral e telefónica, em grupos de WhatsApp ou através de órgãos de comunicação independentes, colocando em risco correspondentes locais.

A situação agravou-se a partir de 2019, com o aumento da iniciativa da insurgência. O grupo havia capturado blindados e veículos motorizados às Forças de Defesa e Segurança de Moçambique, com os quais se fotografavam, e que chegaram a usar no assalto a vilas sede distrais. Até 2021, foram atacadas e temporariamente ocupadas as vilas de Mocímboa, Quissanga, Macomia, Namacande (em Muidumbe) e Palma.

Alguns investigadores nacionais passam a realizar análises sobre as causas do conflito e surgiram explicações assentes na economia política da região. Analisou-se a reconfiguração das relações de poder entre os povos da costa e do interior, a fragilidade do Estado e a exclusão social da população. Análises incidiram sobre o violento processo de penetração do capital extractivo e conflitos com camponeses e pescadores, documentaram-se os massacres nas minas de rubis e as alianças entre o big men locais e o capital internacional. Abordaram-se fenómenos de youth bulge e a ausência de canais de participação e de justiça. Análises históricas centraram-se nas relações da população local com a costa Oriental africana, e tensões existentes no seio do Islão, relacionadas com as diversas vagas de expansão pela região. A partir de entrevistas às populações locais, diversos relatórios de jornalistas e de organizações da sociedade civil divulgaram o nome e a biografia de líderes da insurgência, as respectivas motivações de adesão ao grupo armado e discursos reivindicativos. Entre os guerrilheiros nas matas e as respectivas famílias opera-se uma intensa comunicação, que permite o conhecimento detalhado dos modos de vida no interior da insurgência.

Mantendo a lógica de black out informativo, o governo passou a justificar o conflito a partir do terrorismo internacional. Em Agosto de 2021, quase quatro anos após os primeiros ataques, o Presidente da República pronunciou-se finalmente de forma demorada sobre o assunto. Uma hora de discurso resumiu-se essencialmente na seguinte mensagem: o inimigo não tem rosto, não sabemos o que eles querem, nem sabemos como comunicar. Paradoxalmente, nas semanas seguintes anunciava-se o suposto abate de líderes terroristas sem rosto e, portanto, sem grande significado. Apenas mais uma morte, num conflito sinistro, sem nomes.

Imagem de Opinião de...João Feijó (Moçambique),

Opinião de...João Feijó (Moçambique),

Uma guerra em que o inimigo não tem nome

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