“Kabeça Orí”, de Aoaní e Joyce Souza, chega ao Teatro São Luiz como o desdobramento de um percurso artístico e ritual iniciado na cidade de Lisboa. Antes do palco, a vídeo-performance Kabeça propôs um trajeto pela cidade, marcando simbolicamente espaços ligados à presença negra, lugares onde a história colonial e escravista permanece, em grande parte, silenciada.
Nesse percurso, as artistas evocam memórias soterradas, prestam reverência e reconstroem uma cartografia simbólica que confronta o apagamento histórico. O gesto de bater cabeça surge como ato de respeito e reconexão com quem veio antes, abrindo caminho para a construção de um ritual contemporâneo.
“Kabeça Orí” nasce como continuidade dessa trajetória. Em cena, a linguagem teatral aprofunda a reflexão sobre o corpo enquanto território de memória e resistência. A partir do conceito de Orí, da tradição Yoruba, onde a cabeça é entendida como divindade pessoal, única e intransferível, o espetáculo questiona visões fragmentadas do corpo impostas por lógicas coloniais.
Essa fragmentação, presente na forma como se pensa o corpo, a cidade e a história, é confrontada em palco através do encontro de mulheres negras que, juntas, constroem caminhos, partilham experiências e enfrentam os apagamentos da memória.
Entre fragmentos e reconstrução, a obra levanta questões centrais: como perturbar o esquecimento? Como preservar a memória? E, sobretudo, como manter a cabeça erguida?
“Kabeça Orí” estará em cena de 11 a 19 de abril, no Teatro São Luiz, em Lisboa.
