Entidade meio misteriosa em trânsito entre Lisboa e Cabo Verde, Fidju Kitxora lançaram em 2024 o primeiro disco “Racodja”. Regressam 2 anos depois com o álbum Ti Manxe (até amanhecer), em Kriolo, que nasce da escuta de situações que atravessam o quotidiano. Gravado entre São Nicolau, São Vicente e Santiago, o disco constrói-se a partir de conversas, gravações de campo e fragmentos que apontam para camadas menos visíveis do contexto cabo-verdiano. Entre a morabeza e o kassubodi, o acolhimento e o confronto, a voz funciona como ponto de ancoragem. À sua volta, a música inclui samples de Bitori, Jorge Neto ou Philip Monteiro, que entram, dissipam-se e reaparecem, criando uma estrutura fragmentada onde nem tudo se resolve. As narrativas que emergem são múltiplas: violência, relações marcadas por drogas, estados de exaustão e conflitos, deriva emocional e excesso. Há também momentos de suspensão, corpos que cantam até de manhã, atravessados pelo efeito do grogue, entre transe e desgaste. Ao longo do disco surgem presenças mais difíceis de localizar: ecos, memórias e vestígios que persistem, como se certas ausências continuassem a ocupar espaço. Há uma relação com aquilo que já não está, mas que ainda assim molda o que se sente.
Artista da Semana RTP África – 25 a 30 de maio