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Imagem de A Gestão da Desigualdade
África em Destaque 17 mar, 2026, 08:34

A Gestão da Desigualdade

Imagem de A Gestão da Desigualdade
África em Destaque 17 mar, 2026, 08:34

A Gestão da Desigualdade

A presença de um segurança privado à porta de um estabelecimento comercial significa, normalmente, uma de duas coisas:

• que o espaço acolhe um evento privado, cujo acesso é restrito a uma lista de convidados;

• ou que se trata de um estabelecimento noturno: onde se consome álcool e, provavelmente, estupefacientes; onde a sexualidade e as sensibilidades são exacerbadas; e onde a presença de pessoal especializado é necessária para garantir a segurança do local e dos clientes.

Mas hoje, no centro da cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, veem-se seguranças privados, em plena luz do dia, à porta de pastelarias, esplanadas e restaurantes.

É evidente que não foram contratados para proteger estes estabelecimentos de penetras ou de ânimos exaltados; mas sim para proteger a clientela turística do assédio dos vendilhões, biscateiros e pedintes nacionais.

Ou seja, a função destes seguranças é a gestão da desigualdade; e da agressividade que ela adquire num contexto urbano, anónimo e intensamente globalizado.

A cidade do Mindelo nasceu em meados do século XIX, já num contexto de intensa globalização. O Mindelo deve a sua génese, rápido crescimento e relativa prosperidade ao Porto Grande — um hub marítimo entre a Europa e a América do Sul. Em apenas algumas décadas, o Mindelo tornou-se a cidade mais populosa, moderna e cosmopolita de todo o país.

Nos últimos cinco anos, o Mindelo deixou de ser uma cidade com turismo e passou a ser uma cidade turística — da mesma forma que antes era uma cidade portuária. A diferença é fundamental: numa

cidade com turismo, os serviços de hotelaria, restauração, etc., estão integrados numa economia de base multi-sectorial; numa cidade turística, a totalidade da economia está estruturada em torno do sector.

No século XIX, a economia portuária não trouxe apenas oportunidade económica e vigor cultural: tornou-se um íman para os camponeses famintos das ilhas vizinhas, que rapidamente se amontoaram nas periferias da cidade, em condições precárias; e criou vários mercados de trabalho informais, nomeadamente o tráfico e a prostituição.

Hoje, do mesmo modo, quem não tem as qualificações ou o capital para explorar formalmente a procura turística no Mindelo está condenado a explorá-la pela via informal.

Santo Antão e São Nicolau continuam a produzir camponeses pobres. Que, tal como no tempo do Porto Grande, acorrem ao Mindelo à procura de trabalho, juntando-se aos residentes da ilha numa luta por sobrevivência e mobilidade.

Muitos dos que não têm meios para integrar o mercado formal — ou veem que a remuneração das suas parcas competências não valeria o esforço — congregam-se à entrada de pastelarias e esplanadas, tentando inserir-se no mercado turístico pela via da mendicância, burla e prostituição.

Infelizmente, a atenção dos nossos governantes limita-se ao curto prazo; e estas dinâmicas potencialmente destrutivas continuarão, previsivelmente, sem gestão adequada. Isto significa que, muito em breve, o Mindelo precisará de mais do que um punhado de seguranças privados para conter as hostes de excluídos locais em busca de uma forma de inclusão.

Imagem de Opinião de...Rosário Luz (Cabo Verde),

Opinião de...Rosário Luz (Cabo Verde),

"A Gestão da Desigualdade"

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